SOBRE A LETRA

Um poema de Paul Celan:

“Um sentido sobrevém igualmente

Pela vereda mais estreita,

que fratura

a mais mortal de nossas

marcas erigidas”

“Celan diz-nos em seguida que, por mais estreito e aleatório que seja o caminho, dele sabemos duas coisas:

-  [...] há um ponto fixo. Tudo não passa de deslocamentos de jogos de linguagem, ou variabilidade imaterial das circunstâncias. O ser e a verdade, mesmo arrancados de qualquer apreensaõ do Todo, não desvanesceram. Havemos de encontrá-los, precariamente arraigados justo onde o Todo propõe seu nada.

- em segundo lugar, sabemos que não somos prisioneiros das ligações do mundo. Mais essencialmente, a idéia de ligação, ou de relação, é falaciosa. Uma verdade está des-ligada, e é em direção a esse desligado, em direção a esse ponto local onde uma ligação se desfaz, que o poema opera rumo à presença.

Ouçamos Celan dizer-nos o que é fixo, o que resiste e perdura, e o arrebatamento rumo ao desligado:

“O caniço, que se enraiza aqui, amanhã

ainda resistirá, para onde quer que sejas,

conforme a vontade de tua alma, arrebatado, ao não -ligado”

Celan ensina-nos, enfim, na consequência do domínio do desligado, que aquilo em que uma verdade se apóia não é a consistência, mas a inconsistência. Não se trata de formular juízos corretos, trata-se de produzir o murmúrio do indiscernível.

O que é decisivo nessa produção de um múrmúrio do indiscernível é a inscrição, a escrita, ou, para retomar uma categoria cara a Jean-Claude Milner, a LETRA. A letra sozinha não discerne, mas efetua.

Eu acrescentaria: há vários tipos de letras. Há, de fato, as pequenas letras do matema, mas também o ‘mistério nas Letras’ do poema; há o que a política leva ao pé da letra, há as letras que formam cartas de amor.

As letras dirigem-se a todos. O saber discerne as coisas e impõe as divisões. A letra, que suporta o murmúrio do indiscernível, é dirigida sem divisão.

Todo sujeito é passível de ser atravessado pela letra, todo sujeito é transliterável. Essa seria minha definição de liberdade no pensamento, liberdade que é igualitária: um pensamento é livre quando é transliterado pelas letrinhas do matema, pelas letras misteriosas do poema, pelo levar as coisas ao pé da letra da política e pelas letras das cartas de amor.

Para ser livre com respeito ao mistério das letras, que é o poema, basta o leitor se dispor às operações do poema, dispor-se a elas literalmente. É preciso querer sua própria trasliteração.

Esse entrelaçamento da inconsistência, do indiscernível, da letra e da vontade, Celan denomina-o assim:

“Sobre as inconsistências

apoiar-se:

piparote

no abismo, nos

cadernos de rabiscos

o mundo se põe a sussurrar, depende apenas

de ti”

O poema formula aqui uma elevada diretriz para o pensamento: que a letra, dirigida universalmente, interrompa qualquer consistência, para que advenha o sussurro de uma verdade do mundo.

Mas por onde se conhece o poema? Nossa sorte é que, como sublinha Mallarmé [...]: ‘Uma época sabe, por obrigação do ofício, da existência do poeta’.”

(excerto do “Pequeno manual de inestética” de Alain Badiou)

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Agosto 14, 2008

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A LINHA DESIGUAL / 3a. VERSÃO

dissimétricas

Linhas

nas barracas policromáticas

do Nordeste: como em Klee.

Xadrez-arlequim: os ângulos

são a lógica. As cores

a antilógica. Uma

linha oculta na profusão delas

atrai. Como um perfume.

Tartarugas pedras etc. e tal

light rhymes de Miss Moore

e pés quebrados de cantorias.

Ou o fascínio igual do desigual.

1987

Sebastião Uchoa Leite. Obra em Dobras. São Paulo: Duas Cidades, 1988.

“De A”

DE Zeus a Deus Deu$

Do Tyranossaurus Rex ao Dinamosaurus Lexis

do bobo da corte ao robot do norte

do dromedário ao tráfego planetário

da aurora de róseos dedos ao agora de fogos acesos

da ourivesaria estética à energia cinética

do chão natal à estação orbital

do cortinado ao foguete pressurizado

do romano ao marciano

de Carlos Magno ao Pentágono

do brasão aristocrárico ao jargão galáctico

da pedra lascada à palavra lacrada

(Laís Corrêa de Araújo)

“Decurso de Prazo” (1988). In: Inventário1951 / 2002. Belo Horizonte/MG: Editora UFMG, 2004

Crítica de Cinema: A Questão humana

(A palavra e sua carne)

No princípio está sempre o verbo, ainda que nenhum Deus: palavra vazia e muda, que é preciso soprar. (Continua – link)


Vejam nos links abaixo livros digitalizados de Max Weber e de comentaristas:

A Ciência como Vocação

A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo

Comentadores:

O desencanamento do Mundo

Resenha: Desencantamento do Mundo

Para as “caixas-móveis”, museus portáteis de Luciana Ohira & Sérgio Bonilha.

“Para quem não conhece, a Caixa Preta [produzida por Júlio Plaza e Augusto de Campos] é de fato uma caixa, contendo folhas impressas, cartões, um disco de Caetano Veloso oralizando poemas de Augusto (Dias Dias Dias e Pulsar ), ‘displays’ e objetos plásticos-poéticos para armar. Como concepção, a Caixa Preta descende em linha direta das caixas de Marcel Duchamp, a Caixa Verde (1934) e a Caixa Valise (1938-41). Sobre esta, o próprio Augusto de Campos escreveu, num poema ensaio publicado originalmente na revista Polem:

“a caixa numa valise (1941)
contendo réplicas-miniaturas
e reproduções em cores
é um museu portátil
das invenções de duchamp
e talvez
presque um art
o livro do futuro”

O título geral da obra, por sua vez, foi capturado no terreno da cibernética. Vem do chamado ‘Problema da Caixa Preta’. E é no mínimo interessante ver como a dupla Campos Plaza se apropriou esteticamente do assunto. Em plano cibernético, trata-se de uma caixa lacrada, com terminais de entrada e saída. Aplicando choques ou coisas do gênero (‘perturbações’, como se diz) nos primeiros e observando com atenção o que se passa nos segundos, o engenheiro eletrotécnico deve deduzir o que for possível a respeito do conteúdo da Caixa e de seus mecanismos. ‘Para começar, não façamos quaisquer suposições acerca da natureza da Caixa e de seu conteúdo, que poderia ser algo, digamos, que tivesse acabado de cair de um disco voador’, recomenda o ciberneticista W. Ross Ashby, em sua Introdução à Cibernética. Ora, essas palavras de aconselhamento metodológico, tendo em vista resoluções de problemas técnicos, podem ser lidas prazerosamente, em função da Caixa Preta estética. Olhando para ela, não temos idéia do que nos aguarda. Abrindo-a, topamos com artefatos e artifícios de linguagem que nos tomam de surpresa, no melhor sentido que a palavra possa ter. [...] Mas nada de pensar em decodificação total. Como ensinam os ciberneticista, uma Caixa Preta pode possuir propriedades ‘fundamentalmente não-descobríveis’.”

(RISÉRIO, Antônio. Ensaio sobre o texto poético em contexto digital. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado; COPENE, 1998, p. 165-166)

(…) A sociologia da arte que se deixasse prender pelo postulado weberiano da neutralidade sociológica, que o próprio Weber matizava bastante quando estava fazendo sociologia e não metodologia, seria infrutífera, apesar de todo o pragmatismo. Exatamente através da sua neutralidade é que acabaria caindo em contextos extremamente questionáveis de efeitos, a inconscientes prestações de serviços para interesses que em cada momento sejam poderosos, sobre os quais então recairia a decisão acerca do que seria bom e do que seria ruim. (ADORNO, 1994, p. 112)

Marcelo, estou de volta após as gravações do documentário “Sonho de Cidade”, no hotel-terminal rodoviário do Tietê. Muitos depoimentos, horas e mais horas – no decorrer da montagem, vou disponibilzar aqui uma parte do material bruto.

Li com muito entusiasmo suas colocações sobre a leitura da minha dissertação. Em especial, uma delas me tocou em especial: “escrever como quem respira”. Marcel Duchamp dizia “meu trabalho é respirar”; Clarice Lispector, em entrevista à televisão, afirmou “quando eu não escrevo eu estou morta – agora, aqui, eu estou morta”.

A sua pergunta, “Ana, será que a imagem é o destino da palavra, na qualidade de texto total?”

disparou em mim não uma sinapse, mas todo um curto-circuito neural. Assim, durante os intervalos de gravação, eu caligrafava, sobre uma ficha de leitura – usando minha técnica do “brainstorm sobre papel” -, um fluxograma, que, a partir de hoje, vou desdobrar diariamente, na Oficina de Escrita.

L’Oro di Napoli (Vittorio de Sica)

Ieri, Oggi, Domani (Vittorio de Sica)

Ieri, Oggi, Domani 2 (Vittorio de Sica)

Desde que o samba é samba (Caetano e Gil)

A vida doméstica é repartida, porosa e entremeada. O que distingue Nápoles de todas as grandes cidades é a afinidade com o Kral* dos hotentotes: cada atitude e desempenho privado é inundado por correntes da vida comunitária. O existir, para o nórdico o assunto mais privado, se torna aqui, como no Kral, objeto da coletividade. (Continua. Link)

Desde que o Samba é Samba
Caetano Veloso

Composição: Caetano Veloso

A tristeza é senhora
Desde que o samba é samba é assim
A lágrima clara sobre a pele escura
A noite, a chuva que cai lá fora
Solidão apavora
Tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece
No quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora

A tristeza é senhora
Desde que o samba é samba é assim
A lágrima clara sobre a pele escura
A noite e a chuva que cai lá fora
Solidão apavora
Tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece
No quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora

O samba ainda vai nascer
O samba ainda não chegou

O samba não vai morrer
Veja o dia ainda não raiou

O samba é o pai do prazer
O samba é o filho da dor

O grande poder transformador