O texto e alteridade

Junho 19, 2008

Considero o texto abaixo um exemplo interessante sobre o modo como pequenas interferências nos trazem a percepção da alteridade, em lugar da identidade do que se escreve. Esse efeito deve estar ampliado agora porque o Luiz escrevia em azul, contra o preto da minha mensagem original. Agora isso está perdido…

Gente do Atelier,
oi, todos/todas.

Bom dia. Fico feliz com a interação produzida pelo texto da Fernanda. Infelizmente não terei tempo para me dedicar adequadamente a esta questão até o nosso próximo encontro.
Aproveito, no entanto, a mensagem do Luiz Carlos para confirmar suas impressões: a rigor optei por interferir o mínimo no texto, fazendo-o apenas para dar um recorte mais aproximado das produções acadêmicas que conheço. Nesse sentido me preocupei sempre com o contraditório, ou seja, com a possibilidade de que a Fernanda tenha que sustentar oralmente suas posições.
Creio que, para tanto, o texto deveria amadurecer, como disse a ela em comunicação direta. A própria idéia de desencanamento do mundo - linda do ponto de vista da construção do texto - precisa ser elaborada com mais profundidade, uma vez que seguramente ela não tem o mesmo sentido e significado em Weber e Benjamin (e, em sua esteira, em todos os demais frankfutianos). Minha estratégia, portanto, seria a da reconstrução coletiva do texto. Um exercício em que ganha a Fernanda como autora e nós como escritores. Meus ajustes, portanto, não seriam mais do que um pré-texto dessa possível estratégia.
a despeito de reconhecer o quanto pode ser rico um texto brotado do coletivo, em virtude da riqueza de olhares, inquietudes e bagagens, não me parece ser este, o caso.
explico…
até onde sei, a fernanda ainda não tem claro onde/quando será publicado o artigo; então, estaremos trabalhando sob uma pressão que não se justifica, pois pode ser, a curto/médio prazo, para nada objetivo: e se a publicação desejada só receber artigos, digamos, a partir de setembro, por estar com a pauta editorial cheia?
de outro lado, ela perderá a chance de aprofundar por si mesma as questões conceituais relativas a um texto preparado por ela (tipo de partido editorial, afinamento de conceitos quanto aos autores citados, priorização das idéias centrais elencadas, proposta final do artigo etc.).
ademais, não mais será texto de autor, o que a mim, em princípio, incomoda e bastante, salvo se fosse esta a proposta e até agora não é.
por fim, se há fim neste assunto…, temos pela frente o final das teses sobre história e a discussão de dois outros textos do benjamim (fotografia e reprodutibilidade)…

Tenho uma outra concordância fundamental com o Luiz Carlos, que transcrevo:
“continuo à disposição para ser de auxílio no que me seja possível e lembro que poderíamos aproveitar o tempo decorrente entre os encontros semanais, quando ocorrem, para avançar na discussão do que foi proposto como “atelier paulista em revista”.
assim, mesmo a distância e em momentos não presenciais, poderíamos ir trocando idéias e alternando enfoques, ao mesmo tempo em que construindo o tipo de cultura de atividade colaborativa em ambientes virtuais que deverá imperar quando o projeto estiver implantado.”
Creio que essa postura deveria ocupar o centro de nossas atividades. A rigor há uma questão essencial aqui: muitos dizem que a internet e os ambientes virtuais poderiam fundamentar uma nova oralidade.
em verdade, já estão fundamentando (se bem entendo o que você quer dizer com isso).
a este respeito, e se bem entendi, segue trechinho de um texto meu de início de 2007: “Bem verdade que a personalidade digital precisa redigir para se expor e interagir, já que a comunicação na Internet ocorre principalmente no modo texto, o que para muitos é um desafio – haja vista a “ciberlinguagem” simbólica ou criptografada que se desenvolveu de modo espontâneo na rede, com o uso de acrônimos ou onomatopéias de palavras existentes (kd, vc, bjs, blz, kakaka, naum, cmg, d+, fmz etc.). Voltaremos a este aspecto adiante, pois, em que pese o empobrecimento vocabular dos usuários, decorrência de décadas de educação de baixa qualidade e da predominância da mídia televisiva (que não obriga a ler ou interpretar textos), isso vem oferecendo uma importante oportunidade de aprender a conviver e aprender a ser sem subordinar-se tanto ao manejo de regras gramaticais ou ao uso de vocabulário mais extenso e preciso, quase como em reinvenção daquilo que Oswald de Andrade propusera em 1924 no manifesto “Pau brasil”, quando da afirmação do Modernismo: “a língua sem arcaísmos, sem erudição. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos”.”

Bem, a cultura oral está na base do que Benjamin, por exemplo, entendeu como uma das possibilidades do que eu chamaria de literatura encarnada, ou seja, que conserva a experiência sensível, tátil, sensual, rítimica, musical de seu grupo de origem.
Se não devemos buscar na oralidade um retorno a ambientes idílicos, devemos construir a partir dela a palavra em sua totalidade e, em especial, em sua musicalidade. Escrever bem talvez seja, no nosso tempo, explorar a dodecafonia, a atonalidade, em lugar do conforto sinfônico. Talvez pudéssemos explorar qualificadamente as possibilidades criativas desse novo ambiente e dessa (possível) nova oralidade.
Acho que nosso grupo reune habilidades para ir longe nessas questões.
quanto às habilidades, não há dúvida possível…
parece, sim, é falta de hábito ou iniciativa em ir fazendo, simplesmente fazendo, como der e conseguirmos, de modo a construirmos a nossa “contribuição milionária de todos os erros”.
rsrsrsrsrs

Abraços a todos,
um abraço amigo.

Marcelo
luiz carlos

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