Mais um recorte da Ana
Junho 23, 2008
Faz algum tempo eu recebi da Ana três fragmentos de texto em bom Xerox. Sobre o primeiro, fiz alguns desenvolvimentos que estão na postagem “Lendo com tesoura na mão (para Ana Guimarães)“.
Trato agora do segundo texto, lindamente escrito por Haroldo de Campos:
Recebi da Ana textos que me ocorrem, agora, pertencerem à categoria dos textos confiados. Não saberia dizer isso de outra forma, pois eles parecem ser daquela ordem de coisas que conectam o contingente à mais pura necessidade. Foram também, nessa medida, por um lapso de dias, textos incidentais: andaram na minha mala, viajaram comigo alguns milhares de quilômetros e, sem jamais terem me cobrado o que quer que fosse, me caíram nas mãos sexta-feira à noite, bem noitinha.
Se no primeiro fragmento encontrei meu velho conhecido (Walter Benjamin), no segundo me deparei com ninguém menos que Mallarmé, na escrita poderosa de Haroldo de Campos. Deleite, prazer, tranqüilidade e euforia. Descubro, fascinado, que o Mallarmé havia dado forma precisa a algo que de há muito procuro: a natureza do livro, em sua contemporaneidade. Sim, porque o livro não é uma forma acabada, mas um devir. Legítimo dizer, portanto, que se existe um fotográfico, como bem lembrou a Branca, deve existir também um “livrático”.
Ana foi generosa por me confiar seus textos em bom Xerox, ainda com o cheiro das iniciações intelectuais, que se fazem pertinho da máquina copiadora – quando faltam tanto o dinheiro para os livros, quanto o tempo para os ler por inteiro. E não parou aí: a máquina copiou além do original uma escrita miúda, que abstraída sua intenção primeira, confere ao papel ranhuras delicadas, que o tornam agradável aos olhos, independentemente de qualquer leitura.
Olho essas ranhuras e me ocorre que no sempre novo do Xerox haverá um elemento arcaico, um elo indissolúvel, com mãos que desconhecemos ou desconheceremos. Essas mãos são da natureza das luvas esquecidas, das mulheres que amamos sem ter verdadeiramente conhecido, a que se refere Benjamin: a estranheza, o inusitado, a perplexidade que efetivamente nos pertence.
Ana, obrigado.
Link para: Mallarmé: o livro espetáculo, conservação e superação do jornal
PS: sobre essa estranha proximidade, um eu que eternamente se desconhece, mas que abraça o mundo de modo muito mais amplo do que nossa consciência desse abraço permite reconhecer, um pouco de Raul Seixas e Caetano Veloso:
Raul Seixas – A Hora Do Trem Passar