Minha escrita está organizada a partir de cinco princípios, a saber:

Legado: sob esse conceito se expressa a obra como aquilo que excede a autoria, ou seja, como um espaço onde se reúnem o que é próprio e as afinidades eletivas do autor. Sua idéia-força é a morte, ou seja, a necessidade de transmitir à posteridade não apenas o que de fato se materializou na obra, mas as esperanças, os vínculos de amizade e afinidade. Representa, deste modo, a esforço extremo da intelecção; a oferta do pensamento enquanto ele ainda permanecia como indeterminado, como potencialidade.

Comentário/indicação: a transmissão do legado já se materializa na própria reunião de documentos, como aquilo que foi destacado do infinito, independendo, em sua transmisibilidade, da compreensão (pelo autor) do material reunido. A natureza magistral desta tarefa os monges copistas compreendiam infinitamente melhor do que nós, os modernos. O comentário e a indicação são recursos auxiliares para a consitutição do legado, na medida em que criam um sistema de referências entre os documentos sacados do indiferente e a obra, que quer se organizar como um espaço estruturado e saturado de manifestações.

Espaço de manifestações: para a montagem como técnica literária, a autoria dos elementos individuais da obra é absolutamente irrelevante. A pretensão da obra consiste, a rigor, em tecer um espaço de manifestações, no qual o conceito se exprima em toda a sua amplitude, até revelar sua idéia força, ou seja, seu centro na qualidade de sol em uma constelação, que, de todo modo, continua divergindo da identidade conceitual, por não dissolver o particular no universal, e por preservar o detalhe como tal. Para fins de interpretação e da representação, na montagem, cada conceito tem uma natureza estatística: ele é uma nuvem de pontos.

Modernidade: tenta-se apropriar da modernidade como um espaço de manifestações. Seus quadrantes poderiam ser indicados, de um modo um tanto arbitrário como: paraíso / redenção-salvação / elevação (N); inferno / repetição / abissal (S); eterno retorno do mesmo (O); novelty/o velho como novo (L). A rigor poder-se-ia, e talvez seja necessário, pensar em octantes. Através da indicação/citação de infinitos elementos fatuais, mas também conceituais e teóricos, nesse espaço de manifestações procura-se evitar a unilateralidade de aderir a este ou aquele recorte teórico, como o que em caráter final e último explica o fenômeno da modernidade. A única coisa que interessa efetivamente é a imgem que emerge da plotagem dos infinitos pontos. Aquela imagem é o nome, que confere um rosto humano, características fisionomicamente distintas e distinguíveis, ao espaço de manifestações de que se partiu. Este duplo, ou seja, nome-imagem, como flash, indicaremos como aquilo que está mais próximo da verdade como conceito (é a imagem dialética)

Escuta:
o fundamento da montagem como técnica literária não se encontra na escrita, mas sim na escuta. Se a verdade se apresenta é apenas por conta disso.

A academia, em que pese sua importância para a preservação do pensamento, envenena-o com suas pequenas questões e o excessivo respeito pela obra e pelos mestres. Além disso, partilha de uma concepção de verdade que se faz por exclusão do erro. Ora, o erro é parte integrante da verdade, que só se oferece quando o vê devidamente presente e representado.

Outro problema aqui reside no fato de que, para a academia, a verdade é obra individual, enquanto postulamos a idéia de que ela é obra coletiva, da qual se participa tanto evidenciando acertos, quanto disseminando erros (necessários, segundo cada determinada concepção teórica). O importante, de todo modo, é a saturação que institui a fisionomia de uma época e, talvez, a imagem terrível na qual ela possa espelhar-se, para acordar de seu sonho dogmático.

Deixe um comentário