ESCRITA AMODAL

“Na agrafia terminal de Rimbaud, que desdá, desintegra e desdiz a noite, ou na agrafia tipográfica de Mallarmé, cujo caráter enigmático deriva de pensar alto e escrever sem acessórios, vemos uma busca [um desejo de matar em si mesmo o poeta; uma tentativa de cometer o suicídio da palavra escrita].

Trata-se de uma escritura órfica, que só pode salvar seu objeto renunciando a ele, mas que mesmo assim, sempre olha para trás com relativa esperança. Escritura de terceiro termo, termo neutro ou vazio, oscilando entre singular e plural, entre passado e presente; escritura amodal ou jornalística, ‘se precisamente o jornalismo não desenvolvesse em geral formas patéticas, optativas ou imperativa’. Em suma, um estilo da ausência de estilo que aponta à ausência quase completa de estilo, e revela uma negatividade em que os traços auráticos da norma foram abolidos em benefício da inércia da forma e estilo e onde o pensamento, isento de todo compromisso deliberado ou consciente, redefine a relação entre forma e norma como relação experimental de novo tipo. A escritura é uma forma de experiência, um modo de conceber a prática, um uso social da forma literária: enfim, uma construção do inteligível contemporâneo que resiste à leitura e é, portanto, autoconsciente da transgressão de seus próprios limites”.

(Objecto textual. Raul Antelo. Editado pela Fundação Memorial da América Latina, 1997)

Uma resposta a “Editando com mãos de tesoura – digital cut #1 (p/ Marcelo)”

  1. marceloperon Diz:

    A escrita é um abandono à palavra, a suas dobraduras e luminuras. Na palavra, quem escreve ouve, de tal modo, que em um certo sentido – na contração de um de seus termos – , a palavra fala por si mesma. Resulta a palavra, assim, na escrita daquele que escreve sob a insígnea de sua própria morte, um testemunho mediado do mundo. O poder imenso do texto deriva disso, da ausência – extraterritorialidade – do poeta em sua própria locução, de tal modo que o mundo narra seus terrores abissais, suas alturas insondáveis, o super-humano no próprio homem. A escrita constrói titãs, máquina de poder imenso e, em sua imaterialidade forja o tempo que nos será próprio.


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