Diz-se que na morte a retina retém a última imagem que o olho viu. Houve quem tivesse tentado procurar, então, a imagem supostamente impressa, dissecando o olho.

A palavra, para o poeta, talvez seja esse momento extremo, que só lhe ocorre, na condição de estar ausente.

A palavra que se escreve é, em algum grau, o dizer a morte (dizer o outro).

A uma passante (Charles Boudelaire)

A janela guarda um caráter análogo ao olho, de tal forma que, aquele que sobre ela se debruça, a vislumbrar a cidade, vê duplamente: segundo sua própria vista, mas também a partir do ângulo de visão de um ser mítico – o interior.

Não podemos evitar deixar traços; investimos afetivamente os locais onde existimos, de tal modo que, ao fim, aquele lugar, matéria inerte, também adquire vida própria, identidade e alteridade.

Ruim, mas bom de morar. Esse é o sentimento no Mercúrio

Moradores ainda resistem à idéia de deixar o prédio

(Estado de São Paulo, 29 de junho de 2008 )

Da janela do apartamento 224, no 22º andar do Edifício Mercúrio, no número 3.163 da Avenida do Estado, a enfermeira aposentada Maria Soares, de 85 anos, tem ao acordar a visão que a faz se “sentir viva”. Mineira que cresceu e morou até os 50 anos no Rio, a senhora de cabelos brancos diz estar “bem firme”. Ela pega metrô quase todos os dias para atuar como voluntária em projetos sociais ou simplesmente para ajudar amigas doentes.

“Olha essa visão, a torre branca do Banespa, o Mercadão, o azul-esmeralda da Catedral da Sé, todos esses prédios em volta. Depois minhas filhas não sabem o motivo de eu preferir ficar sozinha aqui em São Paulo e não voltar para o Rio. Sou louca por essa cidade desde a primeira vez que estive aqui”, aponta a aposentada ao observar o skyline do centro velho, da janela de sua sala, no imóvel onde mora desde 1982. Pelo apartamento de 39 m², a Prefeitura ofereceu R$ 25 mil – a indenização vai de R$ 20 mil a R$ 30 mil.

[...]

Pelos corredores, há “gatos” para o fornecimento de luz em alguns apartamentos. Os vidros quebrados tornam as noites ainda mais frias. O único elevador, para quatro pessoas, até que funciona, mas é demorado. Alguns imóveis, contudo, estão ocupados apenas por mercadorias de camelôs da região da Rua 25 de Março.

Depois das 20 horas, quase ninguém se arrisca a sair a pé do degradado edifício. “À noite, só tem mendigo e ‘nóia’, até fantasma tem medo deste lugar”, brinca o metalúrgico Romeu Antunes, de 36 anos, inquilino há 5.

O gigante São Vito, fechado desde 2004, com 624 apartamentos em 27 andares, também é invadido nas madrugadas por pichadores e usuários de crack, segundo os vizinhos.

Há 12 anos na portaria do Mercúrio, Aparecido Stocho, de 62, diz que nem os funcionários da Prefeitura que vão ao local sabem como notificar sobre a desapropriação. Morador da Freguesia do Ó, revela: “Tô fora de morar aqui. Gosto do centro só para trabalhar e passear.”

A janela e a câmara escura

Escrevo com meu corpo em neon extemporâneo.

A cidade recolhe instantes desconexos.

[As esquinas coordenadas de um lugar, o outro].

Poderia tingir as calçadas,

com os sonhos cândidos do meu múltiplo:

ele só me pertence como tormento.

[A parede, um abismo].

A sala é um repositório de cadáveres:

eu os afastos,

mas são o mesmo, que não se esquece.

Câmara escura,

on top of it, o inferno,

segundo sua ótica precisa.

Os outdoors caíram.

Eles nos carregam no cortejo,

cujos fractais giram, indolentes,

para compor o branco do papel,

em que,

agora,

dano o meu olho.

[o vazio].

O sino badala na igreja, longe,

ouço palavras sem carne,

como eletrocução da espinha.

A morte próxima,

a palavra que não se diz.

 soundtrack 1 – Blade Runner Theme

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