A LINHA DESIGUAL / 3a. VERSÃO

dissimétricas

Linhas

nas barracas policromáticas

do Nordeste: como em Klee.

Xadrez-arlequim: os ângulos

são a lógica. As cores

a antilógica. Uma

linha oculta na profusão delas

atrai. Como um perfume.

Tartarugas pedras etc. e tal

light rhymes de Miss Moore

e pés quebrados de cantorias.

Ou o fascínio igual do desigual.

1987

Sebastião Uchoa Leite. Obra em Dobras. São Paulo: Duas Cidades, 1988.

“De A”

DE Zeus a Deus Deu$

Do Tyranossaurus Rex ao Dinamosaurus Lexis

do bobo da corte ao robot do norte

do dromedário ao tráfego planetário

da aurora de róseos dedos ao agora de fogos acesos

da ourivesaria estética à energia cinética

do chão natal à estação orbital

do cortinado ao foguete pressurizado

do romano ao marciano

de Carlos Magno ao Pentágono

do brasão aristocrárico ao jargão galáctico

da pedra lascada à palavra lacrada

(Laís Corrêa de Araújo)

“Decurso de Prazo” (1988). In: Inventário1951 / 2002. Belo Horizonte/MG: Editora UFMG, 2004

Crítica de Cinema: A Questão humana

(A palavra e sua carne)

No princípio está sempre o verbo, ainda que nenhum Deus: palavra vazia e muda, que é preciso soprar. (Continua – link)


Vejam nos links abaixo livros digitalizados de Max Weber e de comentaristas:

A Ciência como Vocação

A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo

Comentadores:

O desencanamento do Mundo

Resenha: Desencantamento do Mundo

Para as “caixas-móveis”, museus portáteis de Luciana Ohira & Sérgio Bonilha.

“Para quem não conhece, a Caixa Preta [produzida por Júlio Plaza e Augusto de Campos] é de fato uma caixa, contendo folhas impressas, cartões, um disco de Caetano Veloso oralizando poemas de Augusto (Dias Dias Dias e Pulsar ), ‘displays’ e objetos plásticos-poéticos para armar. Como concepção, a Caixa Preta descende em linha direta das caixas de Marcel Duchamp, a Caixa Verde (1934) e a Caixa Valise (1938-41). Sobre esta, o próprio Augusto de Campos escreveu, num poema ensaio publicado originalmente na revista Polem:

“a caixa numa valise (1941)
contendo réplicas-miniaturas
e reproduções em cores
é um museu portátil
das invenções de duchamp
e talvez
presque um art
o livro do futuro”

O título geral da obra, por sua vez, foi capturado no terreno da cibernética. Vem do chamado ‘Problema da Caixa Preta’. E é no mínimo interessante ver como a dupla Campos Plaza se apropriou esteticamente do assunto. Em plano cibernético, trata-se de uma caixa lacrada, com terminais de entrada e saída. Aplicando choques ou coisas do gênero (‘perturbações’, como se diz) nos primeiros e observando com atenção o que se passa nos segundos, o engenheiro eletrotécnico deve deduzir o que for possível a respeito do conteúdo da Caixa e de seus mecanismos. ‘Para começar, não façamos quaisquer suposições acerca da natureza da Caixa e de seu conteúdo, que poderia ser algo, digamos, que tivesse acabado de cair de um disco voador’, recomenda o ciberneticista W. Ross Ashby, em sua Introdução à Cibernética. Ora, essas palavras de aconselhamento metodológico, tendo em vista resoluções de problemas técnicos, podem ser lidas prazerosamente, em função da Caixa Preta estética. Olhando para ela, não temos idéia do que nos aguarda. Abrindo-a, topamos com artefatos e artifícios de linguagem que nos tomam de surpresa, no melhor sentido que a palavra possa ter. [...] Mas nada de pensar em decodificação total. Como ensinam os ciberneticista, uma Caixa Preta pode possuir propriedades ‘fundamentalmente não-descobríveis’.”

(RISÉRIO, Antônio. Ensaio sobre o texto poético em contexto digital. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado; COPENE, 1998, p. 165-166)

(…) A sociologia da arte que se deixasse prender pelo postulado weberiano da neutralidade sociológica, que o próprio Weber matizava bastante quando estava fazendo sociologia e não metodologia, seria infrutífera, apesar de todo o pragmatismo. Exatamente através da sua neutralidade é que acabaria caindo em contextos extremamente questionáveis de efeitos, a inconscientes prestações de serviços para interesses que em cada momento sejam poderosos, sobre os quais então recairia a decisão acerca do que seria bom e do que seria ruim. (ADORNO, 1994, p. 112)

Marcelo, estou de volta após as gravações do documentário “Sonho de Cidade”, no hotel-terminal rodoviário do Tietê. Muitos depoimentos, horas e mais horas – no decorrer da montagem, vou disponibilzar aqui uma parte do material bruto.

Li com muito entusiasmo suas colocações sobre a leitura da minha dissertação. Em especial, uma delas me tocou em especial: “escrever como quem respira”. Marcel Duchamp dizia “meu trabalho é respirar”; Clarice Lispector, em entrevista à televisão, afirmou “quando eu não escrevo eu estou morta – agora, aqui, eu estou morta”.

A sua pergunta, “Ana, será que a imagem é o destino da palavra, na qualidade de texto total?”

disparou em mim não uma sinapse, mas todo um curto-circuito neural. Assim, durante os intervalos de gravação, eu caligrafava, sobre uma ficha de leitura – usando minha técnica do “brainstorm sobre papel” -, um fluxograma, que, a partir de hoje, vou desdobrar diariamente, na Oficina de Escrita.

L’Oro di Napoli (Vittorio de Sica)

Ieri, Oggi, Domani (Vittorio de Sica)

Ieri, Oggi, Domani 2 (Vittorio de Sica)

Desde que o samba é samba (Caetano e Gil)

A vida doméstica é repartida, porosa e entremeada. O que distingue Nápoles de todas as grandes cidades é a afinidade com o Kral* dos hotentotes: cada atitude e desempenho privado é inundado por correntes da vida comunitária. O existir, para o nórdico o assunto mais privado, se torna aqui, como no Kral, objeto da coletividade. (Continua. Link)

Desde que o Samba é Samba
Caetano Veloso

Composição: Caetano Veloso

A tristeza é senhora
Desde que o samba é samba é assim
A lágrima clara sobre a pele escura
A noite, a chuva que cai lá fora
Solidão apavora
Tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece
No quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora

A tristeza é senhora
Desde que o samba é samba é assim
A lágrima clara sobre a pele escura
A noite e a chuva que cai lá fora
Solidão apavora
Tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece
No quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora

O samba ainda vai nascer
O samba ainda não chegou

O samba não vai morrer
Veja o dia ainda não raiou

O samba é o pai do prazer
O samba é o filho da dor

O grande poder transformador

Haiti

Julho 18, 2008

Mônica,

Li seus textos e, aos poucos, vou me famializarando com o seu universo de questões. Gosto muito dos seus problemas e, mais ainda, da sua lida com eles.

As interfaces que você faz com a arquetura e com o urbanismo são muito interessantes. Nessa batida, talvez valesse a pena pensar um pouco sobre a organização do espaço e, em especial, dos espaços populares como o Largo da Batata.

Há, naquilo que conhecemos como pobreza, para além de sua própria miserabilidade, uma festa eterna; um Q de carnaval permanente, um despojamento e um descompromissamento que, segundo entendo, nós, bons ou maus burgueses, somos incapazes.

Parece haver em meio à penúria um lado reverso que, justamente por extirpar das expectativas burguesas, lança a um festim e, nessa medida, às várias dimensões das diabruras. Pode parecer absurdo, mas se não pensarmos os espaços populares como lugares carentes da organização citadina, burguesa, talvez encontremos lá, exatamente lá, uma alternativa a um mundo que tem se demonstrado, cientificamente, matematicamente, insustentável.

Tudo isso tem muito a ver com a sua galerização, e seus sentidos distintos: de dentro para fora e de fora para dentro. Essa percepção, como imagem inclusive, pode ser muito proveitosa e produtiva.

Se isso que estou te falando fizer sentido, segundo sua própria percepção de seu próprio projeto, posso ir mais além na tentativa de “escavar” possiblidades. Gostaria, contudo, de saber o que te parece.

Caetano Veloso & Gilberto Gil – Haiti

Mônica digital cut #1

Julho 18, 2008

Talvez seja necessário aceitar que a vida é um acidente, às expensas de todas as tentativas de fundá-la sobre a necessidade. Essa percepção leva a uma tensão extrema a noção de que o existente tenha uma natureza arquitetural, bela e articulada. Abre o espaço, portanto, para a rua, para o contingente, que não sendo belo é sublime, nos arranjos improvavéis e incidentais que produz.

A recusa estética do belo, do harmônico, do objeto digno em favor daquilo que é mundano e vil, regular, ordinário, prosaico é uma opção política e, em grande medida, de crítica à sobrevivência do divino no secular.


(Crash (2004), EUA/ Alemanha, 2004)

“Uma das vantagens da palavra vulgar , na minha opinião, é que, do ponto de vista discursivo, ela aponta para duas direções: para o objeto em si, para algo de abjeto ou absurdo em sua constituição, algum sinal de infâmia, uma característica abominavelmente visual que o objeto nunca deixará de trair por mais que tente; e para a existência do objeto em determinado mundo social, para um conjunto de gostos e estilos de individualidade que ainda estão por definir, mas que de certo modo já estão ali, na palavra, mesmo antes de ser pronunciada.”

CLARK, T J. In: SALSZTEIN, Sônia (org). Em defesa do expressionismo abstrato in Modernismos Trad. Vera Pereira, São Paulo, CosacNaify, 2006, p. 12

(Crash (2004), EUA/ Alemanha, 2004)

“… G. tem um mérito profundo que lhe é peculiar; desempenhou voluntariamente uma função que os outros artistas desdenharam e que cabia sobretudo a um homem do mundo preencher. Ele buscou por toda a parte a beleza passageira e fugaz da vida presente, o caráter daquilo que o leitor permitiu chamar de Modernidade.” (Charles Baudelaire)

* * *

“Baudelaire aclamava o belo na bastardia das ruas porque era delas que o poeta retirava o supra-sumo da experiência[...] e porque a matéria mais sublime da arte só se revelaria a ele mediante a imersão desabusada no vulgar.” (Sonia Salztein)

(Crash (2004), EUA/ Alemanha, 2004)

* * *

Note, contudo, que mesmo esse raciocínio ainda é insuficiente para um pesamento completamente mundano. Mesmo o Deus bíblico permite que o último instante, o derradeiro, seja um momento de redenção completa, na mais total descontinuidade com a história de vida de cada qual. A questão, portanto, talvez resida i) ou na impossibilidade total de qualquer pensamento consequentemente mundano, ou ii) na renúncia de extrair do existente qualquer juízo de natureza moral.

A este respeito vale a pena ler Nietzsche: Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral

Links:

Arte Capital
Arquitextos
Université Tangente