Para Ana: sinapse # 1

Julho 3, 2008

Ana, acabei de ler sua dissertação – o texto propriamente. Ainda não voltei aos demais volumes (o texto, mais propriamente?). Ela é linda, extensivamente linda. Apesar de sua supostamente diagnosticada esquizo-escrita, que também navega por cumes e vales, há linhas narrativas que você, respirando Minas até o derradeiro nó de sua espinha, provavelmente não pode evitar.

Por estranho que possa parecer, ouvi seus muitos “causos”, em um ritmo que é próprio ao seu texto e que me subtraiu do meu tempo. Naquilo que talvez seja sua esquizo-escrita viajei por muitas montanhas e por seus vales sinuosos, ao som do bailado das tropas. São deliciosamente orgânicos os volumes e as modulações que o seu texto produz.

Sabe, pensei muito sobre esse “esquizo”. É possível que seja um bom atributo. Gostaria de acrescentar, contudo, um outro elemento. Você parece escrever como quem respira, ou seja, retoma continuamente questões que levitam, pendentes, para lhes adicionar qualidades cromáticas novas. E como no respirar, que aparentemente é auto-referente, se constrói um outro plano: a vida. Totalmente incidental, do ponto de vista do respirar que a fundamenta, mas em dependência essencial através dessa desconexão.

É preciso muita coragem para aceitar a contingência. Ela nos lembra desse acidental que invevitavelmente somos, de nossos limites e de que, a escrita, é em grande medida uma linguagem dos mortos, que também somos, como vivos.

A mão tece na escrita, autônoma para com relação ao intelecto, memórias e reminiscências que jamais recuperaremos e que, geradas e maternadas por nós, nos são estranhas. A escrita diz tanto de nós, portanto, quanto do daquele outro que também somos.

“É querer escrever antes de saber o quê, antes de escrever esta ou aquela história. Escrevemos o tempo todo, temos uma espécie de abrigo em nós, de sombra, para onde tudo vai, onde a totalidade do vivo se comprime, se amontoa. Ele representa a matéria-prima do texto, a mina de toda escrita. É ‘esquecimento’, é o texto não escrito: é o próprio texto. No filme, o caminhão transporta esse todo. Todo o texto do mundo. Como se isso pudesse ser medido, pesado; trinta e duas toneladas de texto, isso me agrada. É isso que eu chamo: a imagem”. (DURAS, 1977, p. 83 apudGUIMARÃES, 2007, p. 201).

Ana, será que a imagem é o destino da palavra, na qualidade de texto total?

Última nota: essa tecer da mão tem tudo a ver com as imagens escaneadas que viajam pelo seu trabalho.

Deixe uma resposta