Ana: digital cut # 3

Julho 6, 2008

E quase sempre nos esquecemos de que a vida das pessoas não são somente isso: cada trajetória se compõe também de nossas perdas e de nossos desperdícios, de nossas omissões e de nossos desejos irrealizados, do que deixamos uma vez de lado ou não escolhemos ou não atingimos, das numerosas possibilidades que não chegaram a se realizar – todas menos uma afinal de contas -, de nossas vacilações e nossas fantasias, e projetos frustrados e de desejos falsos ou débeis, de medos que nos paralisam, do que abandonamos ou nos abandonou. Nós talvez consistamos, em suma, tanto do que somos quanto do que não fomos, tanto do que pode ser comprovado e quantificado e rememorado, quanto do mais incerto, indeciso e difuso, talvez sejamos feitos em igual medida do que foi e do que poderia ter sido. (MARIÁS, Javier apud GUIMARÃES, 2007, p. 62)

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Bergman é sem dúvida , o autor que mais insistiu sobre o elo fundamental que une o cinema, o rosto e o primeiro plano: “Nosso trabalho começa com o rosto humano [...]” Bergman foi quem levou mais longe o niilismo do rosto, isto é, sua relação no medo com o vazio ou a ausência, o medo diante do nada [...] Então o rosto único e devastado une uma parte de um a uma parte de outro. A esta altura, ele não reflete nem ressente mais nada, apenas experimenta um medo surdo. Ele absorve dois seres e os absorve no vazio. E no vazio ele é o próprio fotograma que queima, tendo o Medo por único afeto: o primeiro-plano rosto é ao mesmo tempo a face e seu apagar. (DELEUZE, 1985 apud GUIMARÃES, 2007, p. 79)

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É certo que tudo tem que desaparecer. Todas as tentativas de lutar contra a morte, o desaparecimento, são em vão. Tudo que essa pessoa soube, suas histórias, seus livros favoritos, suas coleções… Tudo que nos constitui e nos cria desaparece completamente quando morremos. A grande história está nos livros, mas a pequena história é muito frágil. No começo de minha carreira, o primeiro trabalho que eu fiz foi uma tentativa de guardar a minha vida em latas de biscoito, conservar tudo no equivalente a um cofre. Naturalmente eu já sabia que isso é impossível, e digno de chacota. (BOLTANSKI, 1997, p. 36 – Tradução de Paula Cavalcanti apud GUIMARÃES, 2007, P. 123)

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A LINHA DESIGUAL

Algumas coisas têm linha desigual:

as barracas populares

do Nordeste com seleções cromáticas,

desiguais: igual em Paulo Klee.

Idem as cores do xadrez-arlequim.

O xadrez é a lógica

As cores são a antilógica.

Há uma linha que atrai

oculta na profusão cromática

como esse indecifrável nas mulheres

ou nos cascos das tartarugas

idem nas lajes antigas

nas rimas de Marianne Moore.

Nas cantorias de pés quebrados

ouço

o fascínio símil da desigualdade.

(LEITE, Sebastião Uchoa, 1986 apud GUIMARÃES, 2007, p. 188 )

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