Mônica digital cut #1
Julho 18, 2008
Talvez seja necessário aceitar que a vida é um acidente, às expensas de todas as tentativas de fundá-la sobre a necessidade. Essa percepção leva a uma tensão extrema a noção de que o existente tenha uma natureza arquitetural, bela e articulada. Abre o espaço, portanto, para a rua, para o contingente, que não sendo belo é sublime, nos arranjos improvavéis e incidentais que produz.
A recusa estética do belo, do harmônico, do objeto digno em favor daquilo que é mundano e vil, regular, ordinário, prosaico é uma opção política e, em grande medida, de crítica à sobrevivência do divino no secular.
(Crash (2004), EUA/ Alemanha, 2004)
“Uma das vantagens da palavra vulgar , na minha opinião, é que, do ponto de vista discursivo, ela aponta para duas direções: para o objeto em si, para algo de abjeto ou absurdo em sua constituição, algum sinal de infâmia, uma característica abominavelmente visual que o objeto nunca deixará de trair por mais que tente; e para a existência do objeto em determinado mundo social, para um conjunto de gostos e estilos de individualidade que ainda estão por definir, mas que de certo modo já estão ali, na palavra, mesmo antes de ser pronunciada.”
CLARK, T J. In: SALSZTEIN, Sônia (org). Em defesa do expressionismo abstrato in Modernismos Trad. Vera Pereira, São Paulo, CosacNaify, 2006, p. 12
(Crash (2004), EUA/ Alemanha, 2004)
“… G. tem um mérito profundo que lhe é peculiar; desempenhou voluntariamente uma função que os outros artistas desdenharam e que cabia sobretudo a um homem do mundo preencher. Ele buscou por toda a parte a beleza passageira e fugaz da vida presente, o caráter daquilo que o leitor permitiu chamar de Modernidade.” (Charles Baudelaire)
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“Baudelaire aclamava o belo na bastardia das ruas porque era delas que o poeta retirava o supra-sumo da experiência[...] e porque a matéria mais sublime da arte só se revelaria a ele mediante a imersão desabusada no vulgar.” (Sonia Salztein)
(Crash (2004), EUA/ Alemanha, 2004)
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Note, contudo, que mesmo esse raciocínio ainda é insuficiente para um pesamento completamente mundano. Mesmo o Deus bíblico permite que o último instante, o derradeiro, seja um momento de redenção completa, na mais total descontinuidade com a história de vida de cada qual. A questão, portanto, talvez resida i) ou na impossibilidade total de qualquer pensamento consequentemente mundano, ou ii) na renúncia de extrair do existente qualquer juízo de natureza moral.
A este respeito vale a pena ler Nietzsche: Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral
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