CAIXINHA DE BOM-PARECER (móvel #1)
Julho 21, 2008
Para as “caixas-móveis”, museus portáteis de Luciana Ohira & Sérgio Bonilha.
“Para quem não conhece, a Caixa Preta [produzida por Júlio Plaza e Augusto de Campos] é de fato uma caixa, contendo folhas impressas, cartões, um disco de Caetano Veloso oralizando poemas de Augusto (Dias Dias Dias e Pulsar ), ‘displays’ e objetos plásticos-poéticos para armar. Como concepção, a Caixa Preta descende em linha direta das caixas de Marcel Duchamp, a Caixa Verde (1934) e a Caixa Valise (1938-41). Sobre esta, o próprio Augusto de Campos escreveu, num poema ensaio publicado originalmente na revista Polem:
“a caixa numa valise (1941)
contendo réplicas-miniaturas
e reproduções em cores
é um museu portátil
das invenções de duchamp
e talvez
presque um art
o livro do futuro”
O título geral da obra, por sua vez, foi capturado no terreno da cibernética. Vem do chamado ‘Problema da Caixa Preta’. E é no mínimo interessante ver como a dupla Campos Plaza se apropriou esteticamente do assunto. Em plano cibernético, trata-se de uma caixa lacrada, com terminais de entrada e saída. Aplicando choques ou coisas do gênero (‘perturbações’, como se diz) nos primeiros e observando com atenção o que se passa nos segundos, o engenheiro eletrotécnico deve deduzir o que for possível a respeito do conteúdo da Caixa e de seus mecanismos. ‘Para começar, não façamos quaisquer suposições acerca da natureza da Caixa e de seu conteúdo, que poderia ser algo, digamos, que tivesse acabado de cair de um disco voador’, recomenda o ciberneticista W. Ross Ashby, em sua Introdução à Cibernética. Ora, essas palavras de aconselhamento metodológico, tendo em vista resoluções de problemas técnicos, podem ser lidas prazerosamente, em função da Caixa Preta estética. Olhando para ela, não temos idéia do que nos aguarda. Abrindo-a, topamos com artefatos e artifícios de linguagem que nos tomam de surpresa, no melhor sentido que a palavra possa ter. [...] Mas nada de pensar em decodificação total. Como ensinam os ciberneticista, uma Caixa Preta pode possuir propriedades ‘fundamentalmente não-descobríveis’.”
(RISÉRIO, Antônio. Ensaio sobre o texto poético em contexto digital. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado; COPENE, 1998, p. 165-166)