Para as “caixas-móveis”, museus portáteis de Luciana Ohira & Sérgio Bonilha.

“Para quem não conhece, a Caixa Preta [produzida por Júlio Plaza e Augusto de Campos] é de fato uma caixa, contendo folhas impressas, cartões, um disco de Caetano Veloso oralizando poemas de Augusto (Dias Dias Dias e Pulsar ), ‘displays’ e objetos plásticos-poéticos para armar. Como concepção, a Caixa Preta descende em linha direta das caixas de Marcel Duchamp, a Caixa Verde (1934) e a Caixa Valise (1938-41). Sobre esta, o próprio Augusto de Campos escreveu, num poema ensaio publicado originalmente na revista Polem:

“a caixa numa valise (1941)
contendo réplicas-miniaturas
e reproduções em cores
é um museu portátil
das invenções de duchamp
e talvez
presque um art
o livro do futuro”

O título geral da obra, por sua vez, foi capturado no terreno da cibernética. Vem do chamado ‘Problema da Caixa Preta’. E é no mínimo interessante ver como a dupla Campos Plaza se apropriou esteticamente do assunto. Em plano cibernético, trata-se de uma caixa lacrada, com terminais de entrada e saída. Aplicando choques ou coisas do gênero (‘perturbações’, como se diz) nos primeiros e observando com atenção o que se passa nos segundos, o engenheiro eletrotécnico deve deduzir o que for possível a respeito do conteúdo da Caixa e de seus mecanismos. ‘Para começar, não façamos quaisquer suposições acerca da natureza da Caixa e de seu conteúdo, que poderia ser algo, digamos, que tivesse acabado de cair de um disco voador’, recomenda o ciberneticista W. Ross Ashby, em sua Introdução à Cibernética. Ora, essas palavras de aconselhamento metodológico, tendo em vista resoluções de problemas técnicos, podem ser lidas prazerosamente, em função da Caixa Preta estética. Olhando para ela, não temos idéia do que nos aguarda. Abrindo-a, topamos com artefatos e artifícios de linguagem que nos tomam de surpresa, no melhor sentido que a palavra possa ter. [...] Mas nada de pensar em decodificação total. Como ensinam os ciberneticista, uma Caixa Preta pode possuir propriedades ‘fundamentalmente não-descobríveis’.”

(RISÉRIO, Antônio. Ensaio sobre o texto poético em contexto digital. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado; COPENE, 1998, p. 165-166)

Marcelo, estou de volta após as gravações do documentário “Sonho de Cidade”, no hotel-terminal rodoviário do Tietê. Muitos depoimentos, horas e mais horas – no decorrer da montagem, vou disponibilzar aqui uma parte do material bruto.

Li com muito entusiasmo suas colocações sobre a leitura da minha dissertação. Em especial, uma delas me tocou em especial: “escrever como quem respira”. Marcel Duchamp dizia “meu trabalho é respirar”; Clarice Lispector, em entrevista à televisão, afirmou “quando eu não escrevo eu estou morta – agora, aqui, eu estou morta”.

A sua pergunta, “Ana, será que a imagem é o destino da palavra, na qualidade de texto total?”

disparou em mim não uma sinapse, mas todo um curto-circuito neural. Assim, durante os intervalos de gravação, eu caligrafava, sobre uma ficha de leitura – usando minha técnica do “brainstorm sobre papel” -, um fluxograma, que, a partir de hoje, vou desdobrar diariamente, na Oficina de Escrita.

A PARÁBOLA DA ÁRVORE

“Em ‘Paul Klee e o processo de criação’, Clarice [Lispector] traduz uma passagem da conferência de Iêna que ilumina, particularmente, a questão da escritura neutra ou amodal.

Trata-se da alegoria da árvore.

‘Permitam-me recorrer a uma parábola, a parábola da árvore. Tomemos um artista bastante bem orientado no mundo e na vida, à altura de organizar fenômenos e experiências. Esta orientação nas coisas da natureza e da vida, essa organização complexa, de múltiplas ramificações, eu gostaria de comparar às raízes da árvore. Dela sobe a seiva para o artista a fim de atravessá-lo e ao seu olho: ele assume portanto a função de tronco. Pressionado e agitado por esse fluxo poderoso, ele transmite à sua obra o que viu. E a obra, como a copa da árvore, se desdobra no tempo e no espaço. Ninguém exigiria da árvore que ela formasse sua copa à imagem de suas raízes. (…) Ora, como a árvore, ele não faz senão recolher e transmitir as forças surgidas das profundezas. Nem servir, nem dominar, somente transmitir. Ele tem, pois, uma função verdadeiramente modesta. Ele próprio não é a beleza da copa, ela só faz é passar por ele’.

Tanto quanto Klee, Clarice compreende que objetivar o subjetivo não revela materialidade; antes, pelo contrário, desmonta convenções para resgatar delas a imagem pura, a imagem em seu estado de imagem. Isto implica substituir a imagem, cuja matéria é mental, por outra matéria que, situada atrás do pensamento, seja água-viva, aquilo em que a imagem pode consistir quase como um mistério, suporte (subjectile, dirá Derrida, aludindo também às camadas da pintura) ou referência ao Outro.”

(Objecto textual. Raul Antelo. Editado pela Fundação Memorial da América Latina, 1997)

ESCRITA AMODAL

“Na agrafia terminal de Rimbaud, que desdá, desintegra e desdiz a noite, ou na agrafia tipográfica de Mallarmé, cujo caráter enigmático deriva de pensar alto e escrever sem acessórios, vemos uma busca [um desejo de matar em si mesmo o poeta; uma tentativa de cometer o suicídio da palavra escrita].

Trata-se de uma escritura órfica, que só pode salvar seu objeto renunciando a ele, mas que mesmo assim, sempre olha para trás com relativa esperança. Escritura de terceiro termo, termo neutro ou vazio, oscilando entre singular e plural, entre passado e presente; escritura amodal ou jornalística, ‘se precisamente o jornalismo não desenvolvesse em geral formas patéticas, optativas ou imperativa’. Em suma, um estilo da ausência de estilo que aponta à ausência quase completa de estilo, e revela uma negatividade em que os traços auráticos da norma foram abolidos em benefício da inércia da forma e estilo e onde o pensamento, isento de todo compromisso deliberado ou consciente, redefine a relação entre forma e norma como relação experimental de novo tipo. A escritura é uma forma de experiência, um modo de conceber a prática, um uso social da forma literária: enfim, uma construção do inteligível contemporâneo que resiste à leitura e é, portanto, autoconsciente da transgressão de seus próprios limites”.

(Objecto textual. Raul Antelo. Editado pela Fundação Memorial da América Latina, 1997)