CIRCUITO NEURAL (curto-circuito #3)
Setembro 22, 2008
SOBRE A LETRA
Um poema de Paul Celan:
“Um sentido sobrevém igualmente
Pela vereda mais estreita,
que fratura
a mais mortal de nossas
marcas erigidas”
“Celan diz-nos em seguida que, por mais estreito e aleatório que seja o caminho, dele sabemos duas coisas:
- [...] há um ponto fixo. Tudo não passa de deslocamentos de jogos de linguagem, ou variabilidade imaterial das circunstâncias. O ser e a verdade, mesmo arrancados de qualquer apreensaõ do Todo, não desvanesceram. Havemos de encontrá-los, precariamente arraigados justo onde o Todo propõe seu nada.
- em segundo lugar, sabemos que não somos prisioneiros das ligações do mundo. Mais essencialmente, a idéia de ligação, ou de relação, é falaciosa. Uma verdade está des-ligada, e é em direção a esse desligado, em direção a esse ponto local onde uma ligação se desfaz, que o poema opera rumo à presença.
Ouçamos Celan dizer-nos o que é fixo, o que resiste e perdura, e o arrebatamento rumo ao desligado:
“O caniço, que se enraiza aqui, amanhã
ainda resistirá, para onde quer que sejas,
conforme a vontade de tua alma, arrebatado, ao não -ligado”
Celan ensina-nos, enfim, na consequência do domínio do desligado, que aquilo em que uma verdade se apóia não é a consistência, mas a inconsistência. Não se trata de formular juízos corretos, trata-se de produzir o murmúrio do indiscernível.
O que é decisivo nessa produção de um múrmúrio do indiscernível é a inscrição, a escrita, ou, para retomar uma categoria cara a Jean-Claude Milner, a LETRA. A letra sozinha não discerne, mas efetua.
Eu acrescentaria: há vários tipos de letras. Há, de fato, as pequenas letras do matema, mas também o ‘mistério nas Letras’ do poema; há o que a política leva ao pé da letra, há as letras que formam cartas de amor.
As letras dirigem-se a todos. O saber discerne as coisas e impõe as divisões. A letra, que suporta o murmúrio do indiscernível, é dirigida sem divisão.
Todo sujeito é passível de ser atravessado pela letra, todo sujeito é transliterável. Essa seria minha definição de liberdade no pensamento, liberdade que é igualitária: um pensamento é livre quando é transliterado pelas letrinhas do matema, pelas letras misteriosas do poema, pelo levar as coisas ao pé da letra da política e pelas letras das cartas de amor.
Para ser livre com respeito ao mistério das letras, que é o poema, basta o leitor se dispor às operações do poema, dispor-se a elas literalmente. É preciso querer sua própria trasliteração.
Esse entrelaçamento da inconsistência, do indiscernível, da letra e da vontade, Celan denomina-o assim:
“Sobre as inconsistências
apoiar-se:
piparote
no abismo, nos
cadernos de rabiscos
o mundo se põe a sussurrar, depende apenas
de ti”
O poema formula aqui uma elevada diretriz para o pensamento: que a letra, dirigida universalmente, interrompa qualquer consistência, para que advenha o sussurro de uma verdade do mundo.
Mas por onde se conhece o poema? Nossa sorte é que, como sublinha Mallarmé [...]: ‘Uma época sabe, por obrigação do ofício, da existência do poeta’.”
(excerto do “Pequeno manual de inestética” de Alain Badiou)
Untitled
Agosto 14, 2008
CIRCUITO NEURAL (curto circuito #2)
Julho 26, 2008
A LINHA DESIGUAL / 3a. VERSÃO
dissimétricas
Linhas
nas barracas policromáticas
do Nordeste: como em Klee.
Xadrez-arlequim: os ângulos
são a lógica. As cores
a antilógica. Uma
linha oculta na profusão delas
atrai. Como um perfume.
Tartarugas pedras etc. e tal
light rhymes de Miss Moore
e pés quebrados de cantorias.
Ou o fascínio igual do desigual.
1987
Sebastião Uchoa Leite. Obra em Dobras. São Paulo: Duas Cidades, 1988.
AO AGORA DE FOGOS ACESOS (#1)
Julho 26, 2008
“De A”
DE Zeus a Deus Deu$
Do Tyranossaurus Rex ao Dinamosaurus Lexis
do bobo da corte ao robot do norte
do dromedário ao tráfego planetário
da aurora de róseos dedos ao agora de fogos acesos
da ourivesaria estética à energia cinética
do chão natal à estação orbital
do cortinado ao foguete pressurizado
do romano ao marciano
de Carlos Magno ao Pentágono
do brasão aristocrárico ao jargão galáctico
da pedra lascada à palavra lacrada
(Laís Corrêa de Araújo)
“Decurso de Prazo” (1988). In: Inventário – 1951 / 2002. Belo Horizonte/MG: Editora UFMG, 2004


