SOBRE A PALAVRA
“Que diferença faz um homem de uma palavra? Diferem, sem dúvida. [...] o homem tem consciência e a palavra não. Consciência é um termo vago. Pode referir a emoção que surge quando pensamos que somos animais dotados de vida. Consciência obscurecida quando a vida animal entra em declínio, na idade avançada, ou durante o sono, mas que não é turvada quando a vida espiritual decai; quanto melhor animal o homem for, mais nítida essa ‘consciência’, mas nem tanto se for um homem melhor. Não a atribuímos às palavras, pois acreditamos que depende da posse de um corpo. Sendo mera sensação, constitui a parte material do homem-signo.
A consciência é usada para significar o ‘Eu penso’, ou unidade no pensamento. Mas a unidade é consistência ou seu reconhecimento. A consistência pertence ao signo, pois serve para significar que ele é signo, significa sua consistência. O homem-signo adquire informação e passa a significar mais que antes. E o mesmo acontece com as palavras. A eletricidade não significa hoje mais que ao tempo de Franklin?
O homem cria a palavra para que signifique expressamente o que ele deseja, e apenas para esse indivíduo singular. Mas, uma vez que o homem só pensa por signos e outros símbolos exteriores, estes poderiam retorquir: ‘tudo o que você diz o aprendeu conosco, e sempre precisará de uma palavra como interpretante de seu pensamento’.
De fato, homens e palavras educam-se mutuamente; cada aumento de informação humana envolve e é envolvido por um aumento de informação nas palavras. Basta dizer que não há elemento na consciência que não possua algo correspondente na palavra; a razão é óbvia. É que a palavra ou signo usado pelo homem é o próprio homem. Se cada pensamento é um signo e se a vida é uma corrente de pensamentos, o homem é um signo; o fato de cada pensamento ser um signo exterior prova que o homem é um signo exterior. Quer dizer, o homem e o signo exterior são idênticos, no mesmo sentido que as palavras homo e homem são idênticas. A minha linguagem, assim, é a soma de mim próprio; porque o homem é o pensamento.
É difícil para o homem entender isto, pois persiste em identificar-se com a vontade, com seu poder sobre o organismo animal, com força bruta. Ora, o organismo é tão somente instrumento do pensamento. E a identidade do homem consiste na consistência daquilo que faz e pensa, e esta é o caráter intelectual de uma coisa, o expressar algo.
Tudo aquilo que nos é presente constitui manifestação fenomenal de nossa pessoa. O que não impede que o fenômeno seja independente de nós, como um arco-íris é ao mesmo tempo manifestação do sol e da chuva. Quando, então, pensamos surgimos como signo.
Nenhum pensamento em si mesmo, nenhuma sensação, contêm outros; pelo contrário, são absolutamente simples e inanalisáveis. Um pensamento artificial e complexo, quando presente à consciência constitui mera sensação sem partes, sem comparação com outro e absolutamente sui generis em si próprio. Aquilo que é inteiramente incomparável é inexplicável, porque explicar consiste em arrumar as coisas segundo as leis gerais e pô-las em classes naturais. Como algo presente, as impressões são todas semelhantes e não requerem explicação, uma vez que contêm apenas o universal. Uma concepção universal em todos os sentidos seria irreconhecível e impossível. Ao contrário, determinação é negação; para atribuir uma característica a um objeto é necessário compará-lo com outro que não a possua.
Assim, não é observando algo que todas as coisas possam ter em comum que se chega à noção de ‘ser’, mas sim através de uma reflexão sobre signos-palavras ou pensamentos. ‘Ser’ é concepção de um signo pensamento ou palavra; e uma vez que não seja aplicável a qualquer signo, não é primariamente universal, embora o seja em sua aplicação imediata às coisas. Não há cognição ou representação em um estado mental, mas sim na relação entre os estados em instantes diferentes. Em suma, o Imediato (insuscetível de mediação – o Inanalisável, o Inexplicável, o Inintelectual percorre nossa vida num fluxo contínuo; é a soma total da consciência.
Por fim, nenhum pensamento presente (atual) que é mera sensação tem qualquer significado, qualquer valor intelectual; pois o valor reside não no atualmente pensado mas na possibilidade deste pensamento se ligar pela representação a pensamentos diferentes; o significado de um pensamento, portanto, é algo virtual.
Assim,
quando pensamos /
quando sentimos /
quando ouvimos /
quando falamos /
quando vemos /
quando nos expressamos /
quando escrevemos,
a que pensamento se dirige
este signo-pensamento /
este signo-sensação /
este signo-audição /
este signo-fala /
este signo-imagem /
este signo-expressão
que nós somos?”
(bricolagem de excertos pp. 73-92 de “Escritos Publicados”, Charles Sanders Peirce. In: Peirce e Frege – Coleção Os Pensadores)